Sujeito Oculto



César Magalhães Borges 


Você sempre traz coisas
de um grande conhecimento
Quando penso: compreendi
Você diz: eu lamento
Mas há sempre algo além do que se vê

Porque só você pôde ler
livros que já não se encontram mais
Por que eu não sou você?

Você lança o seu olhar
Vê mundos e direções
Você me mostra muitas cores
E eu só sei dizer quantas são

Porque há sempre algo a mais
que só você consegue ver
Por que eu não sou você?

Você dá um sorriso
Eu penso: posso rir também
Você diz: Há um engano.
Bem, eu sei,
eu me enganei

Há sempre um tempo e um espaço
e só você sabe onde é
Por que eu não sou você?

Passo o fim de semana
entre cubos e clubes de livros
Leio jornais tridimensionais,
artigos novos, livros antigos
Armo idéias e proposições
E você me diz:
“é quase isso”
E agora eu já sei, pateticamente,
o que quase sei
é quase isso

Você está sempre em um ponto
que eu não sei bem onde fica
Por que eu não sou você?

Você fala de guerrilhas e motins
Fatos de uma quase revolução
Você tem fotografias,
gentes, rostos, lugares e datas
Coisas que vêm de cem em cem anos
E eu venho de ônibus,
de lugares comuns e fatos cotidianos 

Pois só você soube estar
no lugar e hora certa
Por que eu não sou você?

Ah, você fez a história
que eu só posso ler
Por que eu não sou você?

Sempre há
uma pergunta que paira
quando se está
à beira da morte:

Por que eu
não fui eu? 

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